Governados pelos Mortos

Por que as instituições contemporâneas respondem tão mal às demandas do presente — e o que a sobrecarga informacional tem a ver com isso.

 

Em setembro de 1789, Thomas Jefferson escreveu a James Madison uma carta que ficaria conhecida como um dos documentos mais incômodos do pensamento político americano. A tese era simples e radical: nenhuma constituição e nenhuma lei podem vincular gerações que não as criaram. “A terra pertence sempre à geração dos vivos”, escreveu Jefferson — e toda lei que não for renovada pela geração que a herda é, em suas palavras, “um ato de força, não de direito.” Jefferson chegou a calcular: cada geração dura cerca de dezenove anos. Portanto, qualquer constituição deveria expirar e ser reescrita nesse intervalo.

Madison respondeu com ceticismo elegante. Concordou com o princípio, mas apontou o paradoxo prático: as melhorias construídas pelos mortos — infraestrutura, instituições, direito acumulado — formam uma dívida que os vivos herdam junto com os benefícios. Não se pode simplesmente descartar o legado sem arcar com o vazio que fica.

Duzentos e trinta anos depois, essa tensão entre Jefferson e Madison continua sem resolução — e é a chave para entender a crise institucional contemporânea. Vivemos dentro de arquiteturas políticas, econômicas e organizacionais desenhadas por pessoas que já não estão entre nós, para responder a problemas que já não são os nossos.

Keynes formulou a mesma ideia de forma mais concisa, no último parágrafo da Teoria Geral“As ideias de economistas e filósofos políticos, tanto quando estão certas quanto quando estão erradas, são mais poderosas do que geralmente se supõe. De fato, o mundo é governado por pouco mais do que isso.” O que Keynes não disse — mas ficou implícito — é que as ideias que governam o mundo raramente pertencem ao presente.

I

O anacronismo institucional

O problema não é que as instituições sejam corruptas ou mal-intencionadas. É que foram desenhadas para resolver problemas específicos de contextos específicos — e continuam operando muito depois que esses contextos desapareceram. O Banco Central moderno foi pensado para economias industriais com inflação como risco dominante. O Estado de bem-estar social europeu foi arquitetado para uma força de trabalho masculina, estável e fabril. As grandes burocracias nacionais foram construídas para administrar populações sedentárias com problemas territoriais bem delimitados.

Nenhuma dessas condições descreve o presente. A força de trabalho se fragmentou, o capital se tornou hipermóvel, os problemas centrais — clima, migração, desinformação, concentração tecnológica — são transnacionais por natureza. As instituições herdadas respondem a esses desafios com os instrumentos que têm: regulação setorial, fronteiras nacionais, processos concebidos para outro ritmo de mudança.

O resultado não é ineficiência acidental. É uma defasagem estrutural entre o desenho das instituições e as demandas que precisam processar. Quando a resposta a uma crise sistêmica é adicionar uma camada de governança ao sistema que produziu a crise — mais regulação dentro da mesma arquitetura, mais metodologia dentro dos mesmos incentivos — o problema não é resolvido, é diferido e amplificado.

“Nenhuma sociedade pode fazer uma constituição perpétua, ou mesmo uma lei perpétua. A terra pertence sempre à geração dos vivos.”

Thomas Jefferson, carta a James Madison, 6 de setembro de 1789

II

A distopia dos incentivos contraditórios

Há uma segunda camada no problema. Mesmo que as instituições fossem reformadas, operariam dentro de uma sociedade cujos incentivos apontam em direções simultaneamente incompatíveis. Não se trata de multipolaridade ideológica no sentido usual — direita contra esquerda, conservadores contra progressistas. Trata-se de algo mais difuso e mais difícil de administrar: camadas conceituais que se sobrepõem sem se articular.

Um cidadão contemporâneo é simultaneamente instado a ser empreendedor e a ter segurança de emprego; a consumir e a ter consciência ambiental; a expressar identidade individual e a construir comunidade; a confiar nas instituições e a questionar toda autoridade. Esses imperativos não são apenas contraditórios — são estruturalmente irreconciliáveis dentro do mesmo quadro de ação. A tensão não é gerenciável por mais educação ou mais informação. É produzida pelo próprio design do sistema.

O efeito político dessa contradição é a paralisia. Não a paralisia de quem não sabe o que quer, mas a de quem recebe sinais contraditórios de sistemas que deveriam ser coerentes. Quando o mercado de trabalho exige flexibilidade e o sistema de proteção social foi desenhado para estabilidade; quando a política fiscal incentiva consumo enquanto a política ambiental exige contenção; quando o discurso público celebra autonomia enquanto as plataformas que o hospedam são projetadas para dependência — o cidadão não está confuso por falta de inteligência. Está inserido em uma arquitetura de incentivos que produz confusão sistematicamente.

III

A profusão informacional sem cognição

A terceira camada é a mais recente e a que mais rapidamente muda a natureza do problema. O volume de informação disponível por pessoa cresceu de forma sem precedente histórico nas últimas duas décadas. Mas o crescimento da informação disponível não produziu um crescimento equivalente na capacidade de processá-la, contextualizá-la ou transformá-la em julgamento político útil.

O pesquisador Peter Dahlgren, em análise publicada em 2018 no Javnost — The Public, descreve esse fenômeno como uma crise epistêmica da democracia: o problema não é ausência de informação, mas a velocidade e o volume com que ela circula, que desafiam a capacidade cognitiva de estabelecer hierarquias de relevância e verificação. Estudos sobre overload informacional em contextos de referendo — como o conduzido por Metag e Gurr (2023) sobre votações suíças — mostram que o excesso de cobertura não apenas não aumenta o conhecimento político dos cidadãos, mas produz evitação ativa: quanto mais informação disponível sobre um tema, maior a tendência de parte do eleitorado simplesmente não se engajar.

Isso tem uma consequência que raramente aparece nos debates sobre desinformação: o problema central não é que as pessoas acreditem em coisas falsas. É que a abundância informacional dissolve a distinção entre o que importa e o que não importa. Um escândalo político real compete, no mesmo feed, com um escândalo fabricado, uma discussão de celebridade, uma descoberta científica e uma piada. A arquitetura da atenção pública foi desenhada para engajamento, não para discernimento.

Quando parte relevante da produção simbólica — análise, síntese, argumentação — passa a ser mediada por sistemas de inteligência artificial treinados sobre esse mesmo corpus de informação desordenada, o problema se intensifica. John Wihbey, em artigo publicado  em 2024, descreve o risco como “anacronismo epistêmico”: sistemas de IA estruturam o conhecimento público a partir de dados do passado humano, num momento em que a vida democrática depende da capacidade de revelar preferências e tacitamente ainda não consolidadas. A IA automatiza o que já foi pensado. O que ainda precisa ser pensado fica sem espaço.

IV

O que isso implica

As três camadas se reforçam. Instituições anacronicamente desenhadas produzem incentivos contraditórios. Incentivos contraditórios geram demanda por explicações. A profusão informacional fornece explicações em abundância, mas sem hierarquia nem contexto. O cidadão navega entre respostas que existem em excesso para perguntas que ninguém formulou com precisão suficiente.

A tensão Jefferson-Madison permanece sem síntese porque nenhum dos dois estava inteiramente errado. Jefferson tinha razão ao insistir que instituições envelhecem e que o peso dos mortos sobre os vivos é real. Madison tinha razão ao lembrar que o legado institucional acumulado tem valor e que descartá-lo produz vácuos perigosos. O que nenhum dos dois podia antecipar é a velocidade com que o presente acumula defasagens — e a dificuldade de reformar sistemas quando a capacidade coletiva de raciocínio sobre eles está ela própria sob pressão.

Reformar o design institucional exige, antes de qualquer coisa, a capacidade de ver o design. De reconhecer que o que parece uma crise de valores é frequentemente uma crise de arquitetura; que boa vontade não corrige incentivos mal construídos; que mais informação não resolve o problema quando o problema é precisamente a saturação de informação sem estrutura de sentido.

A política do século XXI talvez não seja travada, em primeiro lugar, no terreno das ideologias. Será travada no terreno do design: quem projeta os sistemas dentro dos quais as ideologias competem, para quem esses sistemas foram pensados, e com que consequências para quem não estava na sala quando foram desenhados