Se um documento tem 756 páginas, por si só, imagina-se que pouca gente leu. Mas esse é, talvez, um dos textos mais importantes para entender o mundo em que vivemos e carrega um título é árido: Final Report of the National Security Commission on Artificial Intelligence.
Foi entregue ao Congresso e ao presidente Joe Biden em março de 2021, embora tenha sido escrito ao longo da primeira gestão Trump. Está dito ali, sem contornos, que os Estados Unidos precisam reorganizar o governo, reorientar a nação e reunir seus aliados para defender e competir na era de competição e conflito acelerada pela inteligência artificial.
O presidente da comissão que escreveu esse relatório era Eric Schmidt, presidente do Google por mais de uma década. O mesmo que presidia o Conselho de Inovação em Defesa do Pentágono. Após a comissão ser encerrada em outubro de 2021, Schmidt fundou o Special Competitive Studies Project, um think tank financiado por ele mesmo, para continuar o trabalho sem mandato público. As raízes da entidades, portanto, se confundem. Schmidt serviu como comissário e foi o primeiro presidente do Defense Innovation Board do Pentágono e pode ser visto exibindo um cinismo comedido em palestras mundo afora.
Schmidt exemplifica um padrão de longa data que antecede o atual debate sobre IA.
A internet que conecta o mundo nasceu como ARPANET, um projeto financiado pelo Departamento de Defesa americano nos anos 1960. O GPS que orienta cada celular do planeta foi desenvolvido pela Força Aérea. A pesquisa que alimentou o Google recebeu financiamento de um programa da comunidade de inteligência americana chamado Massive Digital Data Systems. Alguns exemplos, entre muitos disponíveis.
O entendimento da real dimensão desses fatos altera radicalmente a leitura sobre o mundo em que navegamos hoje.
Em 1999, a CIA institucionalizou essa relação ao criar o In-Q-Tel: um fundo de capital de risco sem fins lucrativos, financiado com dinheiro público, com missão explícita de investir em empresas cujas tecnologias servissem aos interesses de inteligência nacional. Um dos primeiros investimentos do In-Q-Tel foi na Keyhole, que havia desenvolvido um software de mapeamento por imagens de satélite chamado EarthViewer. A CIA trabalhou com a Keyhole para adaptar o EarthViewer para uso na guerra do Iraque: o software integrava imagens de satélite com dados de campo, permitindo que analistas identificassem mudanças em instalações militares iraquianas. Durante a invasão de 2003, redes de televisão americanas usavam o mesmo software para mostrar ao público o avanço das tropas.
Em 2004, o Google comprou a Keyhole, que havia sido parcialmente financiada pelo braço de capital de risco da CIA. A empresa foi rebatizada no ano seguinte como Google Earth. O In-Q-Tel saiu do negócio com ações do Google. Não é o caso de dizer que a fronteira entre tecnologia comercial e infraestrutura de inteligência havia sido cruzada. Essa fronteira nunca existiu da forma que a sugere a vã filosofia.
Economistas que estudam a concentração de poder na indústria de IA descrevem o que veem como consequência da lógica do mercado digital, onde a dinâmica de rede que premia quem chega primeiro e, em seguida, os custos de infraestrutura vão criando barreiras para novos entrantes. E os dados, sendo um recurso que se acumula, valorizam-se com o volume.
Essa é uma análise correta e incompleta.
Três empresas americanas controlam hoje mais de 60% do mercado global de infraestrutura de computação em nuvem. É um percentual que cresce a cada trimestre. Qualquer empresa, governo ou pesquisador que usa IA de forma intensiva passa por essa infraestrutura em algum momento. Por essa razão, decisões sobre preço, acesso, privacidade e continuidade de serviço para qualquer país do mundo são tomadas dentro de empresas americanas, sujeitas à legislação americana e potencialmente acessíveis ao aparato de inteligência americano. É como se um soldado americano numa base do Paraguai vivesse sob as leis dos EUA, não do Paraguai…bom, isso também está a acontecer…
O debate, marxista ou não, contemporâneo sobre automação e capitalismo de plataforma não poderia fugir do entendimento desse fenômeno de concentração dos meios de produção cognitivos.
As plataformas digitais criaram um novo tipo de estrutura econômica em que quem controla a infraestrutura extrai valor de todos que dela dependem. Para explicar isso, o economista Yanis Varoufakis cunhou o á famoso termo tecno-feudalismo. Os usuários e empresas que operam sobre essas plataformas se assemelham a servos pagando tributo ao senhor do feudo digital. Não é de surpreender que próceres do chamado liberalitarismo não escondem um certo encanto pela estética pré-capitalista.
Mas, se essas análises capturam algo real sobre a economia privada, tendem a subdiagnosticar a dimensão do aparato estatal da concentração. Não se trata de um liberal-capitalismo monopolista eficiente.
A política industrial americana, sobretudo militar, construída ao longo de décadas, usou dinheiro público, contratos selecionados pela inteligência estratégica para criar e sustentar um ecossistema tecnológico que serve simultaneamente como motor econômico e instrumento geopolítico.
O relatório da NSCAI que abre o texto é explícito nesse ponto.
Sua carta de intenções na abertura afirma que a competição pela IA já permeia disputas por dados, poder computacional e um recurso mais escasso, formado pelo talento capaz de produzir avanços. A recomendação central não era regular o setor nem garantir que os benefícios fossem distribuídos. Era garantir que os Estados Unidos vencessem essa competição antes que a China o fizesse.
O relatório descreve, em linguagem tecnocrática, exatamente o que pesquisadores de outras partes do mundo, seja o Sul-Global ou a Europa, deveriam estar traduzindo para seus governos, com atenção redobrada. A liderança em IA foi tratada desde sempre pelos EUA como questão de segurança nacional, não como política industrial neutra ou bem global compartilhado.
A corrida para construir data centers, treinar modelos ou fornecer infraestrutura tecnológica para um governo, local ou estrangeiro, acontece dentro desse contexto.
Há uma ironia histórica que vale registrar.
Os economistas que usam Marx para analisar a IA frequentemente citam o conceito do general intellect, a ideia de que o conhecimento coletivo da sociedade se tornaria a principal força produtiva. A IA seria a cristalização desse conhecimento coletivo em forma de máquina.
Marx imaginava esse processo como potencialmente emancipador: o conhecimento social como força que poderia libertar o trabalho da sua subordinação ao capital.
Provavelmente, a história e os exemplos da concentração de infraestrutura revelam que é um caminho diferente. O conhecimento coletivo da humanidade inteira é capturado, processado e mobilizado dentro de uma estratégia de poder de um Estado.
Quando um país debate “soberania digital” sem considerar essa camada, está discutindo a decoração de um apartamento cujo contrato de aluguel já foi assinado por outra pessoa.