Tropecei num anúncio do Twitter vendendo a fórmula capaz de explicar por que qualquer coisa existe. E = C × I × K ≠ 0. Coerência vezes interação vezes complexidade. Erl Kodra, o autor da tese, publica de forma independente na Suécia, e o corpo do trabalho está espalhado por SSRN, PhilArchive, ResearchGate e um site próprio. Nada com revisão de pares, apenas pré-prints. Ele ainda faz um mise-en-scène de que sua “descoberta foi notarizada em cartório em Eskilstuna e registrada em blockchain, para fins de prioridade intelectual.
Mais alguns minutos, fiquei sabendo que a fórmula supostamente resolveria física, consciência, inteligência artificial e cosmologia e que toda entidade que existe atende às três condições; qualquer coisa que não as atenda não existe. Bom, por si só, seria mais um caso de metafísica amadora com verniz técnico. Acho isso divertido, mais ou menos como tentar entender como funciona o leilão de gado na televisão.
Mas, na realidade, o que me interessa é a forma. Em algum ponto o autor precisa explicar por que a academia o ignora. Toda teoria conspiratória, seja política ou epistemológica, depende dessa peça, o inimigo que impede a revelação da verdade.
No caso, chama-se gatekeeping.
Existe uma preferência das instituições acadêmicas por comentar Kant e Aristóteles em vez de avaliar teorias originais. É uma economia de conforto intelectual que protege a estrutura estabelecida. Há uma rede de financiamento que decide o que pode ser dito. Sem mencionar ninguém especificamente, e é essa impessoalidade que se extrai força do argumento. Um “eles” difuso o bastante para nunca ser refutado, específico o bastante para explicar por que a teoria de quem escreve não é levada a sério. Uma vez que essa figura está posta, qualquer crítica ao trabalho vira prova de que a figura está agindo. A teoria fica blindada por dentro e por fora.
O problema é que uma parte disso, isolada da grandiloquência, descreve um fato real. Existe gatekeeping. Publicações indexadas respeitadas sustentaram fraudes por décadas. Redes de financiamento moldam o que se pesquisa.
O que, afinal, me tirou do buraco do coelho do Kodra foi pensar um pouco como se separa a descrição séria sobre a teia real de interesses, da coreografia retórica para vender uma teoria conspiratória recheada de mestres de marionetes.
Matthew Schrag é neurologista em Vanderbilt e trata pacientes com Alzheimer. Em 2021, um escritório de advocacia o procurou. Havia uma disputa em torno de um remédio experimental chamado Simufilam, e os advogados queriam alguém tecnicamente qualificado para olhar as imagens dos estudos que sustentavam o pedido de aprovação. Serviço de 18 mil dólares. Schrag pôs os western blots – técnica laboratorial de biologia molecular usada para detectar, identificar e quantificar proteínas – do Simufilam num software de análise de imagem. Ao olhar aquele material, foi puxando o fio de outros papers da mesma linha de pesquisa.
Em janeiro do ano seguinte mandou ao NIH, agência americana que financia pesquisa biomédica, um dossiê apontando problemas de manipulação em mais de vinte artigos. O paper central do dossiê de 2006, publicado na Nature por um pesquisador chamado Sylvain Lesné, da Universidade de Minnesota. Lesné identificava uma variante específica da proteína, e mostrava, em ratos, uma relação direta entre a presença dessa proteína e perda de memória.
Esse tipo de resultado muda a direção de um campo inteiro de pesquisa.
Se uma única variante da proteína causava o dano cognitivo, bastaria mirar nela para tratar Alzheimer. O paper acumulou mais de 2.300 citações e virou o quinto mais citado da pesquisa básica sobre a doença nas duas décadas seguintes.
O NIH, por sua vez, saiu de praticamente zero em 2006 para 287 milhões de dólares por ano em estudos classificados como “amiloide, oligômero e Alzheimer”. Em 2022, o total investido em pesquisa relacionada a essa proteina amiloide chegou a 1,6 bilhão de dólares, cerca de metade de tudo que o NIH gastava com Alzheimer naquele ano.
A indústria farmacêutica seguiu na mesma direção. O Aduhelm, primeiro medicamento para Alzheimer aprovado em décadas, foi construído sobre a hipótese amiloide e chegou ao mercado em 2021 custando 56 mil dólares por ano de tratamento, com aprovação tão contestada que membros do comitê consultivo do FDA se demitiram em protesto.
Enquanto isso, milhares de pacientes participaram de ensaios clínicos de drogas que miravam essa via.
Em julho de 2022, o jornalista Charles Piller publicou na Science o que Schrag havia encontrado. A reportagem se chamou “Blots on a Field?”. Analistas de imagem contratados pela Science confirmaram os indícios de manipulação. A Universidade de Minnesota abriu investigação. A retratação do paper de 2006 saiu apenas em junho de 2024. Todos os autores assinaram a retratação. Lesné foi o único que se recusou. Segundo o Retraction Watch, é o segundo artigo mais citado da história a ser retirado. Karen Ashe, coautora sênior, continua defendendo que a hipótese amiloide não fica invalidada. Lesné deixou a Universidade de Minnesota em março de 2025.
O que se aprende olhando para essa história depende do ângulo.
Um sujeito como o Kodra usaria o caso como prova de que a academia é uma máquina de encobrimento organizada por interesses ocultos. É a leitura apressada, por um motivo específico. Não foi uma cabala que sustentou o paper durante dezesseis anos. Foi a combinação usual de coisas verificáveis. Uma revista prestigiosa que publica não replica. Um campo inteiro que cita o paper porque citar é o custo mínimo de entrar na conversa. Uma agência federal que direciona dinheiro para onde o campo aponta. Uma indústria que precisa de alvos moleculares definidos para desenvolver drogas. Uma universidade que tem incentivo institucional para não achar má conduta no próprio corpo docente.
Essas peças produzem o resultado sem precisar de uma intenção coordenada. E o resultado não foi desmontado pelo sistema de revisão por pares. Meio que aleatoriamente, um neurologista pago por advogados que estavam atrás de outra coisa, olhando arquivos de imagem no computador de casa.
Existe um vocabulário próprio para descrever esse tipo de resultado.
Um famoso artigo publicado por Paul DiMaggio e Walter Powell, em 1983, descreve por que organizações num mesmo campo tendem a ficar parecidas. Chamaram o fenômeno de isomorfismo institucional. Três mecanismos operam ao mesmo tempo. O primeiro é coercitivo: quem depende de recursos, financiamento ou aprovação de uma agência tende a se moldar ao que a agência espera ver. O segundo é mimético: em contexto de incerteza, organizações copiam quem parece bem-sucedido, porque copiar é o custo mínimo de errar. O terceiro é normativo: profissionais treinados nas mesmas escolas, publicando nas mesmas revistas, participando dos mesmos congressos, chegam ao mercado compartilhando o mesmo repertório do que conta como trabalho sério. Nenhum dos três mecanismos exige coordenação. Os três juntos produzem convergência sistemática de comportamento.
Aplicado à pesquisa de Alzheimer, o isomorfismo explica boa parte do que aconteceu sem precisar de uma teoria da conspiração.
Um pesquisador jovem que quisesse financiamento do NIH em 2010 tinha incentivo objetivo para propor um projeto na linha amiloide. Era ali que o dinheiro estava. Um editor de revista que recebesse um paper contradizendo o consenso teria mais trabalho para justificar publicá-lo do que para pedir mais uma rodada de revisão. A farmacêutica, com seu pipeline montado em torno de anticorpos anti-amiloide, igualente não tinha interesse em financiar estudos que questionassem a hipótese.
Ninguém precisou combinar nada. O sistema recompensou quem seguiu na direção que o próprio sistema apontava, e puniu quem tentou outra.
Anos atrás perguntei a um dirigente de futebol se o esporte era uma encenação sistemática combinada, um tipo de wrestling com torcedores sendo iludidos. A resposta dele foi que, exceto nos casos burlescos que fatalmente vêm à tona, não existia manipulação direta no sentido de definir jogo por jogo quem ganha. Existia uma confluência de interesses que ia do líder de torcida ao presidente da federação, passando pelo juiz e pelos jornalistas, e essa confluência acabava produzindo resultados que agradavam aos corpos de interesse dirigentes. O juiz não recebe telefonema. Sabe, por formação e por carreira, o que uma decisão problemática custa profissionalmente. O jornalista sabe que o acesso às entrevistas depende de não incomodar demais.
Cada peça age no próprio interesse e o resultado agregado tem direção. É a mesma estrutura descrita por DiMaggio e Powell, aplicada a outro campo.
O problema aparece quando se tenta medir essa teia num nível maior.
Em 2011, três pesquisadores suiços publicaram um extenso mapeamento da rede de participações cruzadas entre 43 mil corporações transnacionais em 116 países. Encontraram uma estrutura em formato de gravata-borboleta, com um núcleo de 1.318 empresas densamente conectadas por propriedade recíproca.
Dentro desse núcleo, um subgrupo de 147 empresas controlava aproximadamente 40% do valor operacional de todas as transnacionais da amostra. Das cinquenta maiores desse subgrupo, quarenta e cinco eram instituições financeiras. O trabalho foi revisado, replicável, e a metodologia está aberta. Ele descreve uma teia real, empiricamente delimitada, com dados de propriedade rastreáveis. Mas que não necessariamente dependiam de um plano.
A concentração não pressupõe intenção de concentrar. Ela emerge da lógica de acumulação de capital por participações cruzadas, do mesmo jeito que o alinhamento na pesquisa de Alzheimer emergiu da lógica de financiamento e prestígio acadêmico.
Como um leitor não especializado pode distinguir as duas coisas?
Descartar toda análise de estrutura de poder como conspiração dá conforto igual ao de aceitar toda análise como revelação. As duas posturas dispensam o trabalho de olhar caso a caso. A distinção só aparece no material.
Isomorfismo institucional é uma hipótese com mecanismos identificáveis, testável em campos específicos, e refutável se os mecanismos não estiverem presentes. Uma concentração mensurável de controle acionário, com metodologia aberta, dados de propriedade rastreáveis, e pode ser contestado por quem tiver dados melhores. O caso Lesné foi desmontado por análise pixel a pixel de imagens específicas, por um pesquisador nomeado, com processo institucional documentado.
O objeto do argumento é uma coisa concreta que pode ser refutada por outra coisa concreta.
Claro, a confluência de interesses também pode ser conluio de fato. Em 2006, escutas telefônicas revelaram que dirigentes da Juventus haviam combinado durante temporadas a escalação de árbitros para jogos do campeonato italiano. O clube foi rebaixado à Serie B e teve dois títulos revogados.
A defesa pública que circulou por anos antes das escutas era exatamente a mesma que descreve isomorfismo institucional legítimo. Há uma cultura do meio, uma teia de relações profissionais. As duas descrições produzem o mesmo texto. O que separa uma da outra é a existência das gravações, dos documentos, dos processos. Nenhuma teoria elegante substitui isso. Um argumento sobre poder que se recusa a apontar para evidência material específica está do lado errado da distinção, independentemente de estar certo ou errado sobre o poder.
Esse pequeno fio que o material do Kodra me trouxe funciona como um caso de estudo.
A fórmula E = C × I × K ≠ 0 não é o problema porque metafísica amadora tende a ser inofensiva, ainda que eu me pergunte porque alguém gastaria dinheiro com anúncios de metafísica.
O problema é o segundo movimento, quando o autor precisa explicar por que a academia o ignora e recorre a um adversário difuso o bastante para explicar tudo e específico o bastante para nunca ser encontrado.
Esse mesmo movimento aparece em contextos onde a aparência é bem mais séria.
Toda vez que um argumento sobre poder se blinda contra refutação apelando para uma trama sem nome, endereço e evidência, o formato é o mesmo. Faz mais diferença aprender a reconhecer o formato do que decidir de antemão em quem acreditar
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Kodra, Erl. Artigos e preprints disponíveis em SSRN (https://papers.ssrn.com/sol3/papers.cfm?abstract_id=6563899), PhilArchive e no site do autor (https://www.theelementalreason.com/articles). Sem revisão por pares.
Piller, Charles. “Blots on a field?”. Science, 21 de julho de 2022. https://www.science.org/content/article/potential-fabrication-research-images-threatens-key-theory-alzheimers-disease
Lesné, Sylvain et al. “A specific amyloid-β protein assembly in the brain impairs memory”. Nature, v. 440, p. 352-357, 2006. Retratado em junho de 2024. https://doi.org/10.1038/nature04533
Piller, Charles. “Alzheimer’s scientist resigns after university finds ‘data integrity concerns’ in papers”. Science, 2025. https://www.science.org/content/article/alzheimer-s-scientist-resigns-after-university-finds-data-integrity-concerns-papers
Piller, Charles. Doctored: Fraud, Arrogance, and Tragedy in the Quest to Cure Alzheimer‘s. Nova York, 2025.
DiMaggio, Paul J.; Powell, Walter W. “The Iron Cage Revisited: Institutional Isomorphism and Collective Rationality in Organizational Fields“. American Sociological Review, v. 48, n. 2, p. 147-160, 1983.
Vitali, Stefania; Glattfelder, James B.; Battiston, Stefano. “The Network of Global Corporate Control”. PLoS ONE, v. 6, n. 10, e25995, 2011. https://doi.org/10.1371/journal.pone.0025995