Mapas mentem. Essa é uma função antiga. Desde os cartógrafos medievais que desenhavam dragões nas bordas dos continentes desconhecidos, o mapa serve menos para descrever o mundo do que para domesticá-lo — transformar caos em linhas, incerteza em território, medo em fronteira. Simplificar é o preço da legibilidade. Sabemos disso, mas continuamos viciados em mapas porque a alternativa — conviver com a desordem real — é inadmissível.
O discurso geopolítico contemporâneo ainda sofre do mesmo vício. Vem circulando com mais intensidade a sugestão de um grande conchavo entre as potências do século XXI: Estados Unidos ficariam com o Hemisfério Ocidental, Rússia herdaria a Europa, China dominaria a Ásia. Um mapa de três cores. Não há documento que prove o acordo, não há assinatura, não há foto de líderes posando em cadeiras barrocas como em Yalta, 1945. Mas a tese ganha força, porque mitos funcionam antes de serem verificados.
Esse “Yalta 2.0” imaginado cumpre uma função psíquica antes de cumprir função analítica. Organiza o eterno medo europeu de Moscou, os receios crescentes dos EUA sobre a China, o pânico do Sul Global de ser novamente matéria-prima em tabuleiro desenhado algures. É um enquadramento que simplifica e atende ao anseio diagnóstico: se existe um pacto secreto, ao menos existe uma lógica; se existe lógica, talvez exista previsibilidade. A conspiração imaginada assusta menos do que a desordem real.
A pergunta relevante, porém, não é se existe um acordo formal. É se acordos formais são necessários para que divisões reais de poder se consolidem. A história sugere que não. Ao longo do século XX, houve repartições tácitas que funcionaram sem retórica oficial — a Guerra Fria e sua acomodação EUA-URSS em zonas de fricção periférica, a tolerância estadunidense à expansão chinesa nos anos 2000. Grandes potências podem negar em público enquanto, na prática, estabilizam fronteiras de influência, simplesmente porque guerra custa caro.
Monroe 2.0
Escrevo isso no dia em que forças americanas capturaram Nicolás Maduro em Caracas e o levaram a Nova York para ser indiciado formalmente, acusado de liderar uma rede de narcotráfico com conexões estatais. A operação — conduzida por unidades da Delta Force com apoio da CIA e do DOJ, precedida de ataques aéreos em território venezuelano — foi apresentada publicamente como cumprimento de ordem judicial doméstica, não como ato de guerra. A distinção é juridicamente conveniente e politicamente reveladora.
A chamada doutrina Trump, em seu retorno agressivo ao Hemisfério Ocidental, não aponta para um mundo repartido de forma harmoniosa. Aponta para uma Doutrina Monroe reedita, desta vez direcionada não contra potências europeias, mas contra a presença chinesa — comercial, tecnológica, financeira e, em menor grau, militar — na América Latina e no Caribe. Washington não pretende compartilhar o que considera seu quintal e agora vocaliza isso sem intermediações, demonstrando disposição para agir onde encontrar ausência de resistência real.
Desglobalização seletiva, friend-shoring, vigilância sobre cadeias produtivas, punição a países que se aproximem da China em setores sensíveis: o padrão não é divisão negociada do mundo, mas afirmação unilateral de hegemônica regional. E aqui surge uma tensão central com a fantasia tripartite: se os EUA estão dispostos a agir militarmente no Hemisfério sem consulta prévia a Moscou ou Pequim, isso sugere menos um acordo de cavalheiros do que uma decisão de tomar o que consideram seu, independentemente de qualquer negociação.
A angústia europeia
A Europa vive um problema diferente — e mais lento. Não o medo de ser cedida a Moscou, mas o medo de se tornar irrelevante. Sem autonomia militar consolidada, sem fôlego industrial comparável, sem um projeto estratégico coletivo, o continente oscila entre a sombra da Rússia a leste e uma súbita fadiga estadunidense a oeste, temperada pela instabilidade política interna que a imigração desregulada alimenta.
Pesquisas do European Council on Foreign Relations (2024) mostram que amplas maiorias das populações ocidentais — não apenas elites políticas — consideram a dependência dos EUA estruturalmente arriscada no médio prazo, mas a capacidade efetiva de substituí-la é avaliada como remota pela maioria dos analistas de defesa europeus. A dissonância é reveladora: há consciência do problema, mas não há projeto para enfrentá-lo.
O que pode emergir daí não é um acordo formal, mas um declínio gradual que, por omissão, abre espaço para acomodações tácitas que ninguém precisará assinar.
A cristalização asiática
Se a Europa é o elo fraco, a Ásia é onde o mundo ensaia algo mais perigoso: a transição de uma aparente policentralidade para uma estrutura bipolar. A tese de que a Ásia “nunca será chinesa” porque Japão, Índia, ASEAN, Austrália e EUA equilibram tem algum fundamento empírico — mas a questão relevante não é de equilíbrio estático. É de arquitetura em formação.
Quad, AUKUS, rearmamento japonês, militarização do Indo-Pacífico, doutrinas de dissuasão integradas: não é caos fluido. A recente escalada na crise entre Japão e China expôs a dinâmica: Tóquio adotou discurso mais assertivo — inclusive com declarações sobre a possibilidade de agir ao lado dos EUA em cenário de agressão chinesa contra Taiwan — e Pequim respondeu com exercícios militares em grande escala ao redor da ilha, simulações de bloqueio e fogo real. A contenção é recíproca, mas os limites estão sendo testados.
Essa contenção não exclui entendimento tácito. Um arranjo do tipo “vocês não cruzam certas linhas, nós não cruzamos outras” pode emergir sem ninguém admiti-lo. A China não buscará pacto formal de repartição — isso reforçaria suspeitas de imperialismo aos olhos do Sul Global e legitimaria mecanismos de contenção coordenada contra Pequim. A estratégia chinesa é acumular poder, testar limites, falar em multipolaridade enquanto constrói capacidades para sobreviver num cenário eventualmente bipolarizado. Incompatível com um Yalta asiático explícito; não necessariamente incompatível com um entendimento silencioso sobre até onde cada lado pode ir.
As potências médias e as frestas
Entre os polos, proliferam potências médias e sub-regionais. Emirados Árabes, Turquia, Arábia Saudita, Irã, África do Sul, Indonésia, Nigéria — cada um, a seu modo, tenta construir órbita própria de influência, em negociação simultânea com Washington, Moscou, Pequim e Bruxelas. A proliferação desses centros intermediários tornaria impraticável qualquer acordo de cúpula que ordenasse o mundo em três zonas estáveis, se o acordo dependesse de estabilidade.
Mas e se não depender? O caso dos Emirados é instrutivo. Abu Dhabi projeta poder além do Golfo: envolveu-se na guerra do Iêmen, financiou facções em conflitos regionais, negociou bases e estruturas portuárias no Chifre da África e no litoral do Mar Vermelho, apoiou regimes militares no Sahel. Combina capacidade dura com diplomacia de ajuda humanitária, investimentos em infraestrutura e discurso de modernização. O resultado são micro-esferas de influência que, em vez de contradizer um mapa tripartite, operam nas suas frestas — toleradas enquanto não ameaçam interesses centrais.
A Índia representa a versão mais sofisticada dessa condição. Multi-alinhamento real, autonomia estratégica exercida, não declarada. Nova Délhi coopera com os EUA via Quad, mantém laços com a Rússia em energia e defesa, sustenta relações complexas com a China e participa dos BRICS e da Organização de Cooperação de Xangai. Rejeita uma neutralidade passiva em favor de escolha calculada em múltiplas direções simultâneas.
Há um detalhe que a maioria dos países prefere ignorar quando invoca autonomia multipolar: a Índia consegue isso porque tem poder duro, massa demográfica, indústria estratégica e uma elite com projeto de longo prazo. Autonomia custa caro. Sem capacidade material, multipolaridade é apenas o cenário onde outros caçam.
O Brasil no mapa
A diplomacia do governo Lula retomou o vocabulário do “não-alinhamento ativo” e do protagonismo nos BRICS, aproximou-se de China e Rússia, enfatizou a reforma da governança global — ONU, FMI, Banco Mundial — e tentou conservar pontes abertas com EUA e União Europeia, especialmente em transição energética. O enquadramento é coerente como retórica. Como estratégia, esbarra num fato que nenhum discurso dissolve.
O Brasil não tem poder duro, nem base tecnológica consolidada, nem continuidade estratégica institucional. Tem commodities, dependência da demanda chinesa, exposição ao sistema financeiro americano e uma estrutura de exportações que o IEDI (2025) estima em cerca de 90% de produtos básicos nas vendas à China — soja, minério de ferro, petróleo bruto. Na direção inversa, importa manufaturados de média e alta complexidade. A balança é estruturalmente desequilibrada e nenhum discurso de multipolaridade a corrige.
A captura de Maduro em Caracas aumentou a pressão. Uma solução rápida retira o Brasil de uma posição desconfortável; se o impasse se prolongar, o custo político e econômico regional é imprevisível. O país se vê num corredor estreito: de um lado, uma China que se tornou seu principal parceiro comercial e investidor estratégico; de outro, um EUA que acaba de demonstrar que age militarmente no Hemisfério quando julga necessário, sem consulta prévia.
Se o grande conchavo existir — mesmo que tácito, mesmo que negado — o Brasil corre o risco de descobrir que seu lugar no mapa já foi definido sem que ninguém lhe perguntasse. A alternativa a isso é pior do que a subordinação explícita: parecer autônomo enquanto se é apenas funcional.
O que fazer com isso
A multipolaridade que a tradição diplomática brasileira celebra não é um destino garantido. É uma janela que abre quando há capacidade material para aproveitá-la. Sem isso, o país depende da boa vontade das potências para ter espaço — o que não é política externa, é clientelismo geopolítico.
Primeiro, reindustrialização real. Não como slogan, mas como projeto setorial concreto: energia limpa, insumos farmacêuticos, semicondutores básicos, defesa. Enquanto o Brasil for exportador primário por vocação, qualquer discurso de autonomia é decorativo.
Segundo, soberania tecnológica mínima. Não autarquia — isso é impossível. Mas redução de dependências críticas. Transferência de tecnologia deveria ser condição para grandes contratos de infraestrutura, não cortesia opcional negociada depois.
Terceiro, política regional com substância. Construir arranjos sul-americanos que impeçam o continente de funcionar apenas como teatro secundário de disputas alheias exige clareza sobre o que o Brasil está disposto a oferecer — e o que não está.
Quarto, usar os BRICS como instrumento, não como palco. Isso significa propor iniciativas concretas que reduzam vulnerabilidades compartilhadas: fundos de estabilização, redes de pagamento alternativas, consórcios de pesquisa tecnológica. Celebrar a fragmentação do poder global é ingenuidade; usar essa fragmentação para ampliar margens de manobra é estratégia.
Nada disso é viável sem uma elite com projeto e capacidade de sustentar apostas de longo prazo — que é precisamente o que o Brasil tem desperdiçado com consistência. Mas a alternativa concreta é um país que fala em autonomia enquanto vai sendo alocado, por falta de capacidade, na periferia estável de alguma esfera de influência alheia.
Mapas mentem. Algumas mentiras, no entanto, acabam virando verdade — especialmente quando ninguém se dá ao trabalho de desenhar um mapa próprio. A fantasia de um mundo tripartite pode ser exatamente isso: uma fantasia. Ou pode ser um arranjo que está se formando sem que ninguém precise assinar nada. A cartografia geopolítica do século XXI está sendo desenhada agora — em Caracas, em Taipei, em Kiev. A pergunta é quem segura o lápis. E se o Brasil terá algo a dizer antes que a tinta seque.