Em 1967, Jean-Luc Godard filmou Week End: um engarrafamento interminável que se revelava apocalipse burguês, carros em chamas ao som de Mozart, a civilização europeia engasgando nas próprias contradições. Não era previsão, mas um diagnóstico em tempo real, filmado como se o diretor pudesse ver o que seus contemporâneos ainda não conseguiam nomear.
Paul Thomas Anderson faz algo análogo em Uma Batalha Após a Outra (2025). Mas o paciente agora é outro. Os Estados Unidos no momento exato em que suas ficções fundadoras se despedaçam.
Há uma diferença entre arte que reflete seu tempo e arte que o encarna. Uma comenta, a outra sangra. Uma Batalha Após a Outra pertence à segunda categoria. Não tanto porque Anderson tenha sido profético, mas porque soube ler o que já estava escrito nas paredes.
Uma pesquisa do Pew Research Center de 2024 revelou que 78% dos americanos acreditam que o país está mais dividido do que em qualquer momento de suas vidas. Não se trata de percepção abstrata. Os dados acompanham uma erosão da confiança institucional, da coesão social e mesmo do vocabulário que permite a política.
O filme traduz essa erosão em linguagem cinematográfica.
A primeira metade do filme é deliberadamente claustrofóbica. Os personagens circulam por apartamentos, comícios, protestos, numa movimentação incessante sem deslocamento real. Anderson filma o que parece ser cidades da Califórnia e do Texas como labirintos ideológicos. Em cada esquina há uma emboscada e cada conversa pode ser um campo minado.
Perfidia (Teyana Taylor) é o eixo em torno do qual essa primeira parte gira, mesmo quando não está em quadro. Ela – grávida – encarna, ao mesmo tempo, a promessa e o fracasso do sonho comunitário. Suas escolhas afetivas, políticas e espirituais irradiam consequências que recaem sobre todos.
Há ecos de Godard—a fragmentação de O Demônio das Onze Horas, o fervor de apartamento de A Chinesa. Mas Anderson distorce a fonte. Onde Godard filmava 1968 com ironia utópica, aqui não tem muito espaço para uma utopia possível. A revolução virou performance. O fervor existe, mas sem horizonte. Como uma febre que não encontra cura pois não se consegue identificar a doença.
Nenhum lado é poupado. A direita trumpista aparece como caricatura grotesca da identidade americana, mas a esquerda, porque não dizer, “woke”, também não sai ilesa. Seus rituais de pureza moral são filmados com a mesma frieza clínica. Anderson não oferece conforto ideológico. É uma virtude do filme não oferecer validação de certezas. Quem buscar isso, vai sair frustrado.
O segundo ato muda de registro. Bob Ferguson (Leonardo DiCaprio) e sua filha com Perfidia, Willa (Chase Infiniti), vivem há 16 anos sob identidades falsas numa cidadezinha que parece congelada nos anos 1980. Ele é um ex-revolucionário fingindo ser pai comum. Ela é uma adolescente que desconhece a própria origem.
Anderson filma essa normalidade forçada sem música, sem alívio cômico, sem nenhuma das muletas que o cinema costuma usar para suavizar o desconforto. Compras de supermercado. Jantares silenciosos. Pequenas mentiras que se acumulam como dívida impagável. É a pequena violência estrutural. Está na tensão do que não se diz.
DiCaprio entrega sua melhor atuação em anos. Cada linha de expressão carrega décadas de fuga e culpa. Ele oscila entre a paternidade exausta e a paranoia de que nunca dormiu de verdade.
E então volta o Coronel Lockjaw de Sean Penn, a figura militar cuja caçada a Ferguson mistura dever institucional com obsessão pessoal. Ele suspeita que Willa pode ser sua filha biológica. A perseguição deixa de ser política para se tornar edipiana.
O ato termina sem clímax épico. Apenas a constatação de que a paz era um intervalo entre batalhas.
Quando as instituições implodem, resta a estrada.
Anderson filma o último ato como um Mad Max político. Deserto literal e metafórico da sobrevivência como ideologia e a paisagem esvaziada de promessa. É menos Wim Wenders e mais George Miller—menos nostalgia, mais entropia.
A tese central do filme não é sobre guerra civil. É sobre exaustão.
Exaustão de um país que não consegue mais sustentar suas próprias ficções. Exaustão de uma democracia que virou espetáculo de soma zero. Exaustão de cidadãos que perderam a capacidade de distinguir informação de ruído, justiça de vingança, comunidade de tribo.
Isso importa para além das fronteiras americanas porque o Zeitgeist dos EUA transborda. A cultura de massas estadunidense é a água em que o mundo nada. Seus medos se tornam nossos medos; suas patologias, nossas patologias; seu colapso imaginário, nosso horizonte de possibilidade.
Guerra Civil (2024), de Alex Garland, já havia ensaiado esse pesadelo com frieza de road movie documental. Mas Anderson vai mais fundo. Não filma a guerra como um evento jornalístico, mas sim como atmosfera. Como algo que já está acontecendo em câmera lenta no feed das redes, na mesa de jantar, no ar que respiramos.
O filme não oferece respostas, nem deveria. Arte não resolve o que a política não consegue.
Mas Uma Batalha Após a Outra tem sua urgência por outra razão. É um retrato que nomeia algo difícil de articular. Dá forma ao mal-estar difuso. Transforma a ansiedade em objeto que pode ser visto, discutido.
Apenas por isso o filme entrega muito em termos de uma reflexão contemporânea. Se a ficção começa a parecer plausível demais, é hora de prestar atenção na realidade que a alimenta.
Direção: Paul Thomas Anderson
Roteiro: Paul Thomas Anderson
Elenco: Leonardo DiCaprio, Benicio Del Toro, Teyana Taylor
Título original: One Battle After Another