Em estatística, existe um fenômeno chamado propagação de erro: um desvio mínimo na premissa inicial, ao atravessar uma cadeia de cálculos interdependentes, pode gerar distorções que invalidam a conclusão final. Uma imprecisão de 2% vira 40%, 60% — grandezas que transformam previsão em ficção.
O problema não é apenas técnico. É epistemológico. Quando cristalizamos resultados viciados como verdades — em políticas públicas, em consensos de mercado, em narrativas sobre quem somos — o erro deixa de ser correção pendente e vira estrutura. Hipóteses viram dogmas. Modelos viram realidade. E quem questiona passa a atacar não um número, mas uma ordem inteira de crenças.
O Brasil tem primazia nesse fenômeno.
Durante anos, economistas do mercado financeiro calcularam que o país cresceria, no máximo, 2% a 2,5% ao ano sem gerar inflação. Esse número — o chamado PIB potencial — virou âncora: balizou decisões do Banco Central, justificou juros entre os mais altos do mundo, travou investimento. E quando se ergue toda uma arquitetura de política monetária sobre um número equivocado, o erro se autoperpetua: juros altos destroem produtividade, validam artificialmente a estimativa pessimista. Profecia autorrealizável travestida de ciência.
O fiscalismo brasileiro opera pela mesma lógica. A ideia de que existe um nível “correto” de superávit, uma relação mecânica entre dívida/PIB e credibilidade, uma âncora fiscal que automaticamente gera crescimento — tudo isso repousa sobre correlações frágeis e modelos importados de economias com estruturas distintas. Um desvio de 0,3 ponto na projeção de crescimento muda radicalmente o cenário fiscal. Mas, em vez de reconhecer a fragilidade, endurecemos a meta, sacrificamos investimento, asfixiamos a economia real. Basta culpar “a falta de reformas” pelo fracasso, sem questionar se o modelo fazia sentido.
Há ainda a régua alheia. Vibramos ou nos desesperamos conforme o humor “do mercado”. Subimos no ranking de facilidade de negócios e celebramos; caímos no Pisa e decretamos catástrofe. Como se essas métricas capturassem nossa realidade — como se critérios desenhados para a Alemanha ou a Coreia fizessem sentido para um país continental, desigual, com informalidade endêmica e Estado fragmentado.
O resultado é uma esquizofrenia: imitamos benchmarks que não nos servem, erramos diagnósticos, implementamos políticas que agravam problemas, e concluímos que o Brasil é inviável. Essa narrativa derrotista é, ela mesma, produto de erros acumulados.
O que raramente se discute é que erros não se cristalizam por inércia, mas porque há gente que lucra com eles.
O mercado financeiro ganha com juros altos. Cada ponto percentual na Selic é transferência direta de renda para quem detém títulos públicos. O discurso do “PIB potencial baixo” e da “necessidade de âncora fiscal” não é neutro — é funcional. Justifica uma política monetária que beneficia o rentismo.
Consultorias internacionais e agências de rating ganham com a importação acrítica de métricas. Quanto mais o Brasil se mede por réguas externas, mais depende de quem fabrica essas réguas. O país vira cliente perpétuo de diagnósticos que não se resolvem, mas sempre renovam contratos.
A tecnocracia doméstica, por sua vez, ganha com a complexidade. Quanto mais o debate econômico se fecha em jargão, modelos e consensos técnicos, menos espaço há para questionamento político. O erro está blindado pois quem discorda não entende de economia.
E a classe política tradicional ganha com a narrativa do fracasso inevitável. Se o Brasil nunca vai funcionar, não há cobrança funcional por indicadores. A mediocridade se normaliza. O horizonte de expectativas baixa, e com ele a exigência sobre quem governa.
O erro acumulado não é acidente. É um sistema que se mantém porque distribui benefícios a quem tem poder para mantê-los.
Não entendo ser isso seja uma espécie de destino manifesto às avessas. Países saíram de armadilhas semelhantes. Mas é resultado impossível sem confronto direto com os interesses. Mesmo se o jogo da conciliação nacional prevalecer, será necessário escolher quais interesses contrariar.
A Coreia do Sul, entre os anos 60 e 80, ignorou o consenso do FMI e do Banco Mundial, que recomendava especialização em produtos primários. Apostou em indústria pesada, subsidiou campeões nacionais, protegeu mercado interno — o “erro” segundo os manuais, comemorado na crise do tigres asiáticos. O resultado foi a transformação de um país agrícola devastado pela guerra em potência tecnológica.
A China pós-1978 rejeitou tanto o modelo soviético quanto o liberalismo de mercado puro. Criou um híbrido pragmático: zonas econômicas especiais, controle estatal de setores estratégicos, abertura seletiva. Cada política era tratada como experimento, não como dogma.
Irlanda e Canadá, nos anos 90, fizeram ajustes fiscais duros, mas acompanhados de reformas estruturais reais — educação, infraestrutura, simplificação tributária — e num contexto de juros baixos globais. O ajuste foi meio, não fim. Portugal, após anos de troika e austeridade que afundaram a economia, reverteu cortes a partir de 2015, aumentou salário mínimo, retomou investimento público — contra todas as recomendações ortodoxas. O resultado: crescimento acima da média europeia, redução do déficit, queda do desemprego.
A reversão parcial da austeridade a partir de 2015 rompeu com o script dominante da crise do euro: em vez de aprofundar cortes para “recuperar confiança”, o governo apostou em renda, demanda e previsibilidade social. O aumento do salário mínimo, a recomposição de salários e pensões e a retomada seletiva do investimento público ajudaram a reativar o mercado interno sem provocar o colapso fiscal anunciado pelos ortodoxos. O resultado foi um ciclo curioso: crescimento com consolidação fiscal, algo tratado como impossível no discurso tecnocrático da época.
Isso não significa milagre nem negação da realidade. Portugal se beneficiou de ventos externos favoráveis (juros baixos, turismo aquecido, BCE acomodatício) e manteve compromissos claros com regras europeias — não houve ruptura institucional nem aventura inflacionária. A “desobediência” foi política, não macroeconômica: escolheu-se quem pagar primeiro a conta do ajuste.
Centralmente, a experiência expôs o limite da austeridade como dogma. Cortes contínuos em economias deprimidas não restauram confiança; atrofiam capacidade produtiva e corroem legitimidade política. Portugal mostrou que há espaço para pragmatismo dentro do euro — desde que haja coordenação política, leitura correta do ciclo e disposição para contrariar consensos preguiçosos.
Não é um modelo exportável mecanicamente. Mas é um precedente incômodo: prova que a ortodoxia não é lei da natureza, é escolha.
O padrão é claro: países que escaparam de armadilhas fizeram duas coisas. Primeiro, questionaram as premissas — não aceitaram que o modelo importado era a única opção. Segundo, enfrentaram os interesses que se beneficiavam do status quo.
Não há solução mágica, mas há direções.
Desmontar a profecia autorrealizável dos juros passa por um Banco Central que trabalhe com premissas realistas sobre o PIB potencial, em vez de estimativas sistematicamente conservadoras que servem de álibi para um aperto permanente, e por enfrentar sem eufemismos o lobby rentista que se beneficia estruturalmente de uma Selic elevada.
Ao mesmo tempo, é preciso abandonar o fiscalismo como religião: responsabilidade fiscal é instrumento, não dogma, e a questão relevante não é o tamanho abstrato do superávit, mas sua finalidade concreta — investimento público em infraestrutura, educação e tecnologia não é consumo improdutivo, é construção de capacidade futura. Isso exige também romper a dependência de métricas importadas e rankings externos, desenvolvendo indicadores que reflitam a realidade doméstica, como informalidade, desigualdade regional e qualidade do emprego, em vez de apenas celebrar números que agradam agências e consultorias. Uma política econômica madura trata-se menos como doutrina revelada e mais como experimento contínuo, disposto a testar, medir e corrigir rumos, o que pressupõe uma humildade intelectual pouco comum no debate econômico.
Por fim, e talvez mais desconfortável, está a necessidade de nomear interesses: toda escolha econômica redistribui poder e renda, e a pergunta sobre quem ganha e quem perde deveria ser explícita, deslocando o debate do falso tecnicismo para o terreno político onde ele sempre esteve, ainda que disfarçado.
Não existe obra-prima irrefutável, nem modelo definitivo. O que há de fato é necessidade de correção contínua ou, mais recorrente, recusa de corrigir.
O Brasil coleciona recusas. Décadas de premissas erradas cristalizadas em consenso, protegidas por quem lucra com elas, repetidas por quem não tem incentivo para questionar. Mas a mesma instabilidade que nos condena também nos dá uma vantagem. O país sabe recomeçar, improvisar e mobilizar. Se não tratarmos isso como defeito, poderia ser entendido como método.
Assumir o erro, corrigi-lo em movimento, talvez seja essa a única sabedoria da economia política disponível para quem vive num rascunho permanente. A diferença entre estagnação e avanço não está em acertar de primeira, mas em corrigir antes que o erro se torne estrutura.